O cidadão panamericano: minhas lembranças do sábio mendigo.
Nunca o vi tão inspirado como naquela noite fria, em que eu voltava do lançamento de um livro.
Já tomada de emoção, cheia de idéias pra escrever, tornar públicas também as minhas palavras...
Observando quão múltiplo o universo de dimensões em que nos encontramos... Cada qual com seu universo pessoal!
Do lado de cá... Nosso mundo: shoppings, livrarias, lançamentos, cultura, conhecimento ou esclarecimento mental: o apogeu da elite cultural!
Por isso, maior surpresa ao passar e, ainda vê-lo por lá. Há doze anos está lá: MENDIGO e igual para se ver.
Veste sua coroa de plástico. Nas mãos a caneta bic preta, pedaços de papel. Segue o dia todo com suas anotações.
Como escritor, este mendigo-cidadão trabalha bem mais horas do que nós... Teria ele, mais a dizer?
Poderia já ter publicado muitíssimos volumes com tantas horas de trabalho repetitivo a que se submete diariamente.
Mas apenas tem idéias e escreve.
Como! Há quanto tempo!
Mas, do que mesmo é feito o seu pensar?
O que lhe move?
O que não aceita jamais?
O que o inspira?
Qual o seu mundo?
Inconformidade, traços e meias-palavras caóticas?
Este seu texto, busca como o meu, razão ou linearidade?
Vejo-me, ainda adolescente, andando pelas ruas de São Paulo, com máquina fotográfica pesada nas mãos... Caminhando quilômetros, atrás de imagens paulistanas e inusitadas...
Foi nesta época, caminhando inocente, que descobri este cidadão panamericano.
Desde então, por vezes lhe vigiei, visitei...
Mas depois de tanto tempo...
Já decolei daqui tantas vezes, encontrei outros destinos para minha história. Também pousei de volta outras tantas vezes...
...enquanto mudei de cena, de trabalho, amor, personalidade e finalidade...
Ainda lá... ainda louco...ainda são... Ainda salvo... E, ainda então...
Escreve e sequer sabe... da gente.
Numa ocasião, quando o cliquei sem permissão, ríspido, disse que o retrato seria para trazer-me fama e dinheiro, como jornalista.
Neste dia, “conversamos”... E escutei silenciosa, sem contestar.
Estava ciente e muito senhor do seu lugar na sociedade...
Como produto exótico, diferente... espécie de ruído social.
Deste então, passei a vê-lo e pensar nele como o REI
Pois- de verdade- tem sua coroa na cabeça, a mesma longa barba e as palavras escritas, que transbordam de seu pântano interior.
Meu rei é uma estátua viva, onde não pousam pombas, ou se chega perto.
Não é ponto turístico, não incomoda ou se faz ver... quase não existe.
Mas acaba por ter presença brasileira: fala português claro, olha nos olhos...
E hoje, e - já há tempos- vive no entorno da Praça “Pan-americana”.
Somente habita.
Sua morada, de lona preta, coisa rasteira...
E faz-nos refletir que a crença de que devemos civilizar os mendigos, domesticar os índios, gerir os loucos, salvar a humanidade defende que meu amigo Rei é infeliz, pois não está inserido...
Mas este cidadão...
Mundano, histórico, exclusivo...
Ainda assim me Inspira, fascina.
Pois é senhor desconhecido... Porém dono e possuidor ...de seu precioso e quase secreto universo...
Pan-americano.